
E isso com maior razão, se nos defrontarmos com a autoridade dos pais que, conquanto estejam sempre com essa expressão na boca, entretanto mostram qual é o valor que lhe dão no uso de que dela fazem. Principalmente Agostinho, que não hesita em chamá-lo servo. É bem verdade que, em certo lugar, ele se opõe aos que negam a existência do livre-arbítrio, mas, ao mesmo tempo, ele demonstra o que pretende, quando diz: “Somente que ninguém se disponha a negar o livre-arbítrio para, com isso, escusar o pecado”. Por outro lado, porém, ele confessa que “a vontade do homem não é livre sem o Espírito de Deus, visto que é dominada por suas concupiscências”. Igualmente diz ele que “depois que a vontade é dominada pelo mal em que caiu, a nossa natureza perdeu a liberdade”. E ainda: “O homem fazendo mau está em cativeiro e não pode fazer bem algum”.
Que diremos nós, ainda mais que noutro lugar parece que ele se põe a zombar dessa expressão, dizendo que há um livre-arbítrio bem livre no homem, mas de modo nenhum está livre de preocupações, e está livre da justiça e é servo do pecado? O que testifica que ele não tem outra opinião sobre a liberdade o homem, senão que se desviou da justiça, rejeitando o seu jugo para servir ao pecado. Não é assim, que ele zomba apenas do título que lhe dão, chamando-o livre-arbítrio? Portanto, se alguém se permite usar essa expressão, não farei com ele grande controvérsia, mas, uma vez que vejo que não se pode fazer uso se fosse abolida, eu não gostaria de empregá-la; e se alguém me pedisse conselho, eu lhe diria que se abstivesse do seu uso.
Fonte: As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa / João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Pág. 99.

