
Como devemos louvar à luz da reforma?
As pessoas sensíveis amam uma boa música. Isto é um fato inquestionável. Até Lutero expressou isto (e há muito tempo): “A música é filha do céu e o homem que verdadeiramente a ama não pode ter se não bons sentimentos. Eu não tenho consideração alguma por um povo que não saiba cantar. Aqueles que ficam insensíveis à música são corações secos, que só posso comparar com pedaços de rocha ou madeira.” Ela marca gerações, está presente em todos os segmentos da sociedade e principalmente tem espaço garantido nas igrejas. E há igrejas famosas pelos seus louvores.... Contudo, crentes reformados sabem que a música faz parte de uma verdadeira adoração, por isso deve ter um tratamento especial. Vejamos os porquês.
Todas as palavras para designar “louvor”, em hebreu ou grego, refletem uma de duas idéias. O conceito de louvor mais comumente encontrado hoje deriva da palavra proskuneo. Pros significa “para com” e “kuneo” quer dizer “beijar”. De acordo com o dicionário BAGD, essa palavra designa “o costume de alguém se prostrar perante outra pessoa e beijar seus pés, a bainha de sua capa, o solo, etc. Os persas faziam isso na presença de seu rei endeusado e os gregos ante uma divindade”. Desse modo, a palavra significa “(prostrar-se e) louvar, prestar obediência a outrem, prostrar-se frente a alguém, reverenciar, acolher respeitosamente”. Como se pode ver, proskuneo é uma atitude de humildade, reverência, apreciação, temor, adoração e maravilha. A ênfase é para o amor e a devoção. O segundo conceito de “louvor” é representado pela palavra latreia, a qual essencialmente significa “serviço” ou “trabalho”. Essa palavra originalmente se referia ao trabalho dos escravos ou servos contratados. Em contraste com proskuneo, latreia é uma palavra de ação.
Assim, biblicamente, adorar a Deus é “trabalhar” para Ele em atitude de “adoração reverente”. Além disso, Jesus disse à mulher samaritana “crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. ... os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (João 4:21-24). Louvor nada tem a ver com localização geográfica ou tempo – é para ser feito em qualquer lugar onde os crentes se encontrem e em todos os tempos. Desta forma, não se deve restringi-lo aos cultos de domingo porque surpreendentemente, o Novo Testamento jamais se refere às reuniões da igreja como “cultos de louvor”. Romanos 12:1 menciona um “culto racional”, mas se refere a oferecer nossos corpos a Deus como um sacrifício vivo - nada tem a ver com culto de igreja! Certamente nada há de errado com louvar o Senhor durante as reuniões da igreja (1 Coríntios 14:22-25, Efésios 5:19, Colossenses 3:16). Porém, esse deve ser o principal objetivo do culto?
As reuniões da igreja (ou cultos), reveladas no Novo Testamento são interativas, informais e pequenas. Simplicidade era a regra das reuniões das igrejas domiciliares. Em algum lugar do percurso (cerca da época do Édito de Milão, do Imperador Constantino) saímos dos lares e nos mudamos para os vetustos e majestosos “santuários” (os quais formalmente pertenciam às religiões pagãs). Nós trocamos interação e incentivo mútuo por monólogo. A intimidade foi perdida quando as massas passaram a se encontrar nos enormes salões de conferência chamadas catedrais. A informalidade deu lugar à liturgia, pompa e cerimônia. Os cultos se transformaram em espetáculos, com a congregação assistindo às performances da elite espiritual. Nessa atmosfera, atender a 1 Coríntios 14:26 se tornou cada vez mais difícil. Dentre o que ainda podia ser atendido, estava Efésios 5:19 e Colossenses 3:16, de modo que o “louvor” tornou-se o foco principal desses espetáculos de performance. Com um agravante: são louvores heréticos, alguns totalmente destoantes da Palavra de Deus, com letras muito distantes de “uma atitude de humildade ou reverência...”.
Calvino deixou clara sua posição sobre isto quando afirmou que há poder na música para incitar os ânimos ao verdadeiro zelo e ardor de orar, e demonstrou a sua preocupação para que a melodia não seja mais enfatizada do que a letra (CALVINO, 1989). E é na letra que encontramos afrontas terríveis à Soberania de Deus. Basta analisar algumas canções como “Restitui”/ “Toque no Altar” (Ministério Apascentar de Nova Iguaçu), “Os sonhos de Deus” (Ludmila Ferber) ou “Milagres” (André Valadão) entre tantos outros... Parece que a criatura troca de lugar com o Criador exigindo, esperando, querendo.... Contudo, os crentes cantam sem constrangimentos, sem refletirem sobre o conteúdo destes louvores. Nestes e em vários outros louvores cantados nas igrejas, não há centralidade em Cristo, traço característico da Igreja Cristã ao longo dos séculos, em especial da Igreja Reformada, como também estão vazios de fundamentação bíblica, conseqüência do abandono do princípio Sola Scriptura. Que Deus nos dê entendimento e inteligência para não cairmos neste engano de abandonar a centralidade de Cristo e substituirmos pelo homem, nos distanciando do que é mais importante para um louvor puro, sincero e agradável a Deus que é: estar em plena concordância com a Bíblia.... para que Deus Seja (de fato) Louvado....
Josenilde Lima Cazimiro (Josy)

